Cura do Yin

A psique feminina nasce do próprio corpo. Ela é a parte sutil da matéria, porém altamente enraizada nessa matéria. A psique feminina não é espírito puro, ideia, razão, ela é o fruto da vivência corporal. O que chamo de psique feminina é também o feminino presente no homem.

Portanto, para vivenciar sua realidade interior e ser capaz de atingir as aspirações de sua alma, a mulher deve confiar em seu corpo. A consciência não é uma ideia abstrata, mas sim um aprendizado diário com nosso corpo. O corpo diz: estou cansado, tenho fome, tenho medo, meus ombros pesam, quero sair daqui, sinto-me relaxado e passamos a perceber o ambiente que nos cerca a partir da perspectiva pessoal e simples. Sabemos quem somos e o que queremos, e temos a capacidade de escolher aquilo que nos faz sentido. Quantas vezes nos forçamos a sair à noite para um programa social quando precisamos de uma boa noite de descanso? Quantas vezes fazemos amor sem estarmos prontos para nos entregarmos ao outro naquele momento? Quantas e quantas vezes fazemos coisas porque moralmente achamos que não podemos estar parados, quietos e tranquilos? Temos vergonha de parar, de descansar. Até nossos momentos de lazer nos fazem correr: filmes de ação, bares e restaurantes barulhentos e lotados, festas alucinantes, drogas que aceleram. Desaprendemos a respeitar os intervalos, os momentos de silêncio. Uma música se faz da alternância entre o som e o silêncio. Em música há pausas, rápidas ou longas, as quais criam a melodia da composição. Uma música sem intervalos é cansativa e feia. Assim também, uma vida acelerada e frenética nos tira da harmonia e da beleza de nossa expressão pessoal. Para se ver o fundo do lago é preciso acalmar suas águas.

Tempo e Espaço

Fim de semana. Após uma longa e dura semana de trabalho chegou o merecido descanso. Surge então a ansiedade. O que farei hoje? Há tantas coisas para fazer, filmes para ver, e-mails e telefonemas para responder, livros para ler, a casa para arrumar, os amigos para encontrar, as festas, os almoços de família, enfim, a diversão.

Diversão, entretenimento não é igual a descanso. Entreter-se significa, segundo o dicionário, ocupar-se, encher, divertir com distrações. Distrair é estar desatento.

O que estamos fazendo com nosso escassíssimo tempo livre? Estamos ainda mais desatentos de nós mesmos. Já não basta a semana inteira em que não prestamos atenção ao nosso interior, o fim de semana é igual ou pior. E no final? Sentimo-nos vazios. Não sabemos mais o que realmente nos importa, pois estamos muito ocupados com as agendas, com o fazer. Esquecemos de ser.

Conversava com uma paciente judia ortodoxa que me explicou o sentido do Shabat, o dia de descanso. Nesse dia não se usa carro, não se telefona, não se usam computadores, elevadores, aparelhos eletrônicos. Alguns desses atos efetivamente obrigam a pessoa a se aquietar e outros são símbolos que marcam e lembram que é um dia em que até Deus parou para descansar da sua criação. Se Deus descansou, por que nós não descansamos? O Shabat é um dia em que a família está reunida e pode apreciar a companhia, convergindo para o mesmo ponto, sem diversões nem divergências. Esta paciente conta que é este o dia em que consegue conversar melhor com seu marido, é o dia em que fica mais tranquilamente com seus filhos e que tem tempo, finalmente, para cultivar sua alma, aquilo que está dentro de si e só pode se revelar quando abrimos espaço e tempo. Se não sabemos como nos aquietar em um dia apenas na semana, por que queremos viver tanto? Para continuar correndo?

O comércio hoje oferece serviços 24h e achamos que isso é bom. Vou ao supermercado à noite e ele está cheio, pois as pessoas não têm tempo durante o dia e fazem suas compras à noite. O shopping agora abre aos domingos e corremos para comprar, ver, sair. Estamos nos afundando no consumismo e preenchendo todos os espaços vazios, mais uma vez. Assim como o tempo, o espaço está sendo preenchido por algo novo em cada milímetro. Enquanto isso, continuamos acumulando lixo oriundo de bens de consumo velhos, de forma sem precedentes, em uma Terra que não tem mais espaço para tudo o que jogamos fora.

O trabalho tornou-se um ditador da vida. Dita o horário de nossos dias, de nossos encontros sociais, do tempo que sobra para a família e dita ainda nosso vestuário, nossos estudos, nossa busca por títulos e até nossas leituras. O trabalho, hoje, ocupa um tempo enorme das horas do dia e as pessoas têm vergonha de dizer que têm tempo livre. Acham que não merecem respeito se estão ociosas. Por outro lado, quem está atolado de coisas para fazer julga-se muito importante, porém perde o contato com quem está ao seu redor e, pior, consigo mesmo, tornando-se nada mais que uma peça do sistema e, aí sim, uma pessoa sem importância real.

No ano de 2006 fiz uma excursão ao Monte Roraima, um monte belíssimo situado na fronteira do Brasil com a Venezuela. Ao chegar ao topo da montanha, tínhamos a vista de toda a região, e o programa seria dormir no topo do monte para ter o dia seguinte inteiro para explorar sua superfície lunar de pedras e cristais e admirar a vista dos diferentes pontos de observação. O dia seguinte amanheceu com uma forte chuva.

Não havia meios de passearmos, muito menos condições de vermos a vista. Tínhamos dormido em uma caverna e lá tive que permanecer o dia todo, vendo a chuva cair. Foram 24h olhando a chuva cair. Nas primeiras três horas quis inventar coisas para fazer. Escrevi em meu diário, arrumei a mochila, cozinhei. Depois acabou. Nada mais a fazer. A chuva não parava. Veio o tédio. Depois o desespero. A chuva continuava a cair. Então, veio uma profunda paz interior. Percebi quanto apreciava estar ali, envolta nas nuvens e na chuva, tranquila, sem nada nem ninguém que me esperasse. Quis que aquele dia não acabasse jamais, pois me senti esvaziada da ansiedade e plena de vida.

A cura do Yin é nada mais que deixar o tempo e o espaço entrarem em nossas vidas, sem que precisemos preenchê-los. O Yin é o Vazio, o Vazio é o útero, é no útero que a vida nova pode surgir. Nada de novo surge onde já está tudo ocupado.

Fonte: livro Domínio do Yin – Da Fertilidade à Maternidade; a Mulher e suas Fases Segundo a Medicina Tradicional Chinesa – Helena Campiglia