Um dos aspectos mais fundamentais cultivados e desenvolvidos na prática dessa terapia é o estado de neutralidade. Esta disposição é essencial para estabelecer um suporte terapêutico seguro na modalidade biodinâmica da terapia craniossacral. A neutralidade facilita a criação de um campo relacional seguro que, por sua vez, estabelece a base para o plano de tratamento se desenvolver a partir de dentro e ser ouvido.

Estou ciente de que é um tópico bastante amplo, uma vez que é um processo que pode começar de dentro para fora, outras vezes de fora para dentro, e que envolve também o corpo, a mente e o espírito. É uma prática que, como a meditação, está se tornando cada vez mais estabelecida em nós, dando-nos uma base, um ponto de referência, uma qualidade de presença, de integridade e de descanso.

Perdemos o estado neutro e o recuperamos constantemente. É altamente variável e cheio de vida e possibilidades.

Para mim, é um processo de benevolência interna perceber o que o desvia do seu centro e aprender a voltar para ele. É um mergulho na aceitação e confiança nos processos e em suas constantes mudanças. Uma prática de não saber e não julgar, de se estabelecer na equanimidade que tudo acolhe, seja qual for a experiência.

Eu diria que é a base do que muitos mestres nos ensinam em práticas meditativas, trazidas para a sala de tratamento, por assim dizer.

Atingir um estado neutro é geralmente progressivo, começo a perceber a respiração pulmonar, que é o meu principal ponto de referência quando se trata de saber onde estou. Permito-me sentir o apoio e a ancoragem da mãe terra que me sustenta. Terra abaixo, céu acima e meu coração no centro, convido você a se expandir em todas as direções enquanto aceito o que está acontecendo,dou espaço, deixo ir …

A partir dessa atenção, consciente do meu estado interno e na prática de reconhecer o que quer que seja que se apresente, dar espaço e deixar ir, o centro de observador se torna cada vez mais imperturbável pelas idas e vindas das sensações, pensamentos, etc. Pouco a pouco, se faz sentir certa homogeneidade e relaxamento no corpo, nas emoções e na mente.

Tudo vai se aprofundando, se expandindo, e isso me permite começar a acolher o campo, o espaço da outra pessoa e encontrar o ponto neutro do relacionamento. A neutralidade na relação começa a acontecer quando nossos sistemas nervosos autônomos se alinham e nossos corações se encontram.

Nesse modelo de terapia, é necessário que o sistema nervoso autônomo da pessoa se desvincule de qualquer sensação de alarme, e por isso o papel do terapeuta é prover, cultivar e sustentar um suporte terapêutico seguro para que essa mudança fisiológica possa ocorrer.

Avrati Aranda Miguel.

Tradução: Claudia Hosni – Espaço Manar
Fonte: Avraticraneosacral