O QUE É MEDITAÇÃO?

Boa pergunta. Não há resumo de descrições, teorias, manuais, textos ou idéias sobre isso. Existem centenas de escolas de meditação que incluem orações, reflexões, devoção, visualização e uma grande quantidade de modos para acalmar e focalizar a mente. A meditação perceptiva (bem como outras disciplinas semelhantes) busca, em especial, levar a compreensão para a mente e o coração.

Começa com um treino de consciência e um processo de exame interior. A partir desse ponto de vista, perguntar “O que é meditação?” seria o mesmo que perguntar “Que é a mente?” ou “Quem sou eu?” ou “Que significa estar vivo ou ser livre?” – perguntas a respeito da natureza fundamental da vida e da morte. Devemos responder a essas questões dentro de nossa própria experiência, através de um descobrimento interno. Este é o núcleo, o coração, a essência da meditação.

À medida em que levamos a graça e a harmonia da virtude para dentro de nossa vida exterior, também podemos começar a estabelecer uma ordem interna, um senso de paz e clareza. Este é o domínio da meditação formal e isto começa treinando-se o coração e a mente na concentração. Significa serenar a mente e juntar a mente e o corpo, focalizando nossa atenção sobre nossa experiência no momento presente.

A habilidade de concentrar e estabilizar a mente é a base de todos os tipos de meditação e é, na verdade, uma habilidade básica para qualquer empreendimento ou esforço, seja para as artes, o atletismo, para a programação de computadores ou para o autoconhecimento. Na meditação, o desenvolvimento do poder da concentração surge através do treino sistemático e pode ser feito usando-se uma série de meios, entre os quais a respiração, a visualização, um mantra ou um sentimento especial como a gentileza amorosa.

Jack Kornfield, Buscando a Essência da Sabedoria

Uma máxima antiga encontrada no Dhammapada resume a prática do ensinamento do Buda em três simples princípios de treinamento: abster-se de todo o mal, cultivar o bem e purificar a própria mente. Esses três princípios formam uma seqüência gradual de estágios, progredindo do externo e preparatório para o interno e essencial. Cada estágio leva naturalmente em direção ao outro que o segue, e a culminação dos três na purificação da mente torna claro que o coração da prática budista é encontrado aqui.

Purificação da mente como entendido no ensinamento do Buda é o esforço contínuo em limpar a mente das impurezas, aquelas forças obscuras e não-saudáveis que correm por baixo do fluxo superficial da consciência, viciando nossos pensamentos, valores, atitudes e ações. Dentre as impurezas, destacam-se três, as quais o Buda descreve como “raízes do mal” – cobiça, ódio e ilusão – a partir das quais emergem numerosas derivadas e variantes, como raiva e crueldade, avareza e inveja, comparação com os outros e arrogância, hipocrisia e vaidade, e uma multiplicidade de visões errôneas.

O trabalho de purificação deve se edificar no mesmo lugar onde as impurezas surgem, ou seja, na própria mente, e o principal método para a purificação da mente oferecido pelo Dharma é a meditação. Meditação, no treinamento budista, não é nem uma jornada para êxtases auto-efusivos, nem uma técnica caseira de psicoterapia, mas um cuidadoso e elaborado método de desenvolvimento mental – preciso e eficiente na prática – para alcançar a pureza interna e a liberdade espiritual.

Bhikkhu Bodhi, A Purificação da Mente

MEDITAÇÃO – Não se define, pratica-se

A meditação não é algo novo, nós viemos ao mundo com ela. A meditação é natural, é o próprio ser, a própria vida. A meditação é um alimento tão natural e vital como a respiração.

A conquista de uma vida mais plena, equilibrada, harmoniosa e lúcida, passa pela naturalidade e qualidade de como respiramos e meditamos. Nós a tornamos difícil por lutarmos contra algo que achamos está nos impedindo de ser livres, ou por buscarmos algo que, presumimos nos dará mais liberdade.

Na realidade, a liberdade está em simplesmente relaxarmos (aceitarmos) aquilo que somos, vivendo a cada momento intensamente, como se não houvesse outro momento. As pessoas estão lutando para se livrarem de alguma coisa. Uma esposa que só reclama, um marido controlador, um pai dominador, um chefe repressor, uma sociedade corrupta e violenta.

Minha luta tem sido desde a infância um esforço para libertar-me dos condicionamentos sociais, através de muito trabalho terapêutico. Esta luta, apesar de me tornar cada vez mais consciente do meu ser, não me tornou livre. Esta luta é simplesmente uma reação contra algo que eu acho não me permite ser livre.

A liberdade da meditação não é tampouco uma busca para encontrar libertação de algo. Quantos de nós sonhamos estar em alguma situação que nos permitiria simplesmente relaxar e ser nós mesmos? Livres da competição e da tensão da vida cotidiana?

Minhas experiências demonstraram que a liberdade pela qual estamos buscando não depende de algo fora de nós mesmos. Então, o que é a liberdade que aspiramos? SIMPLESMENTE LIBERDADE, VIVENDO NO AQUI E AGORA, momento a momento, nem vivendo na memória e opressão do passado, nem em fantasias do futuro. Comendo – simplesmente coma, esteja presente, saboreie, celebre com todos os sentidos. Caminhando, simplesmente caminhe, esteja ali, admire tudo o que está acontecendo neste caminhar. Não vá à frente, não pule para cá e para lá. A mente sempre vai para a frente ou para trás. Fique com você a cada momento.

Então, o que fazer a respeito dessa tagarelice e desse dispersar fora de controle, que nos separa e nos priva de momentos preciosos da vida?

Inúmeras vezes repito: “Meditar”.

Não podemos parar a mente tagarela diretamente, mas através da meditação, o tagarelar pode diminuir e finalmente desaparecer. Com a meditação a mente torna-se um instrumento útil, ao invés de escravizar-nos com sua constante inquietação. Freqüentemente ficamos confusos pela profusão de inúmeras técnicas de meditação. Mas são apenas recursos técnicos para nos ajudar na conquista do estado meditativo, que é o estar presente, no aqui e agora.

O fundamental é usar de técnicas adequadas às nossas condições sócio culturais e natureza psicoemocional. As técnicas da meditação ativa foram desenvolvidas para o ocidente, que contém toda uma forma de viver, pensar e reagir diferente do oriental. Assim, inicialmente usa-se de diversos trabalhos corporais como dança, catarse, exercícios físicos, etc., que irão provocar um movimento energético que desintoxica e relaxa o corpo, para finalmente dar espaço à meditação, ao silêncio, à observação, ao testemunhar.

Testemunhar simplesmente. Significa uma observação neutra, sem preconceitos. Um grande segredo da meditação. Se vêm pensamentos, observe, testemunhe, não julgue, não critique. E volte para o presente. É na verdade tão simples que durante algum tempo não percebemos o ponto. Todos achamos, com certeza, que sabemos o que é observação. Observamos coisas ao nosso redor durante todo o tempo. Vemos TV, outras pessoas, notamos como estão vestidas, calçadas, sua aparência e cheiro, mas geralmente não vemos a nós mesmos. Quando o fazemos é sob uma ótica
de crítica constrangedora. Percebemos algo sobre nós mesmos que não gostamos e, então, começamos a nos preocupar sobre o que os outros pensarão. Essas tagarelices internas nos fazem sentir infelizes e culpados. Isso não é o testemunhar.

Através da meditação você descobrirá o que é testemunhar, porque ele começará a acontecer de maneira espontânea. Através da lucidez que a meditação traz, vem a possibilidade de transformar pensamentos e atitudes, padrões e preconceitos internos, cristalizados há muito tempo em nós.

Texto adaptado do livro MEDITAÇÃO a primeira e última liberdade – Osho – Ed. Sahnti

Meditação significa serenidade na vida

Muitas pessoas pensam que meditação significa sentar-se com as pernas cruzadas. Esta é apenas uma pequena parte da meditação. Nem ficar quieto é necessariamente serenidade. Por exemplo, quando uma pessoa está com raiva e decide não conversar, externamente pode parecer quieta mas internamente não está, de modo algum, quieta.

A verdadeira serenidade é dinâmica, como um gerador funcionando a mil rotações por minuto – muito estável, muito quieto, mas muito dinâmico. Em nossa vida a serenidade da meditação não é simples quietude, mas uma força real que vem de dentro de si. Quando é expressa como quietude ela é profunda e serena. Quando é expressa em ação ela é dinâmica e harmoniosa. Manter esta serenidade da mente é central para nossas vidas, pois nos habilita a ver claramente a verdade da vida.

Gyomay Kobuse, O Centro Dentro de Nós

A dádiva de aprender a meditar é o maior presente que você pode se dar nesta vida. Porque é apenas através da meditação que você pode empreender a jornada para descobrir sua verdadeira natureza e assim encontrar a estabilidade e a confiança de que necessitará para viver e morrer bem. A meditação é o caminho para a iluminação. Meditar é interromper por completo o modo como “normalmente” operamos, em benefício de um estado isento de cuidados e tensões em que inexiste competição, desejo de posse ou apego a qualquer coisa, sem a luta intensa, sem fome de adquirir.

Um estado desprovido de ambição onde não cabe nem o aceitar nem o rejeitar, nem a esperança nem o medo, um estado em que lentamente começamos a libertar-nos das emoções e dos conceitos que nos aprisionaram, até chegarmos a um espaço de simplicidade natural.

Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano do Viver e do Morrer

 

Fonte: Textos selecionados sobre Meditação – Apostila I – Doce Limão