Respirar é fisiologia das mais básicas. Movido a oxigênio, o sangue – um dos muitos fluidos que percorre o nosso corpo – nutre cada célula, correndo através de redes capilares de extensão e dimensão inimagináveis. O sangue vela pela saúde perfeita. Na sua trajetória recolhe também tudo que o corpo não precisa mais e deseja descartar. O sangue é lixeiro diligente e preciso, se permitimos que cumpra a sua tarefa.

Capilares são diminutas e constituem a etapa final do aporte de nutrientes. Estão em todos os lugares do corpo, operando a troca. Carregam o oxigênio que disponibiliza o prana, fluido sutil da vida em si. Sem descanso, recolhem o material tóxico a ser descartado. Cada célula agradece.

Levando em consideração a delicadeza de um vaso capilar, queremos ter a certeza de que o sangue possa efetivamente ir e vir por ali. Ele necessita de toda a fluidez possível. Se as hemácias, células que compõem o sangue, estão poluídas, pela má qualidade do ar inspirado, ou do alimento ingerido, ou ainda da emoção que faz o corpo reagir com hormônios acidificantes do estresse, entre outros fatores relacionados ao estilo de vida de cada um, as membranas celulares sofrem modificações. Os seus contornos se modificam, as células se aglutinam. Um exame de microscopia de campo escuro revela esse fenômeno. A passagem do sangue, agora viscoso, fica lenta e difícil, a irrigação pode vir a cessar, comprometendo a sua função de apoio à saúde de cada órgão.

Temos no respirar uma ferramenta divina de autocuidado. Ao estender uma prática de hatha yoga para o pranayama, que é o cultivar, explorar e dominar a respiração, com intenção focada, atenção plena e presença no corpo, inicia-se uma considerável limpeza e purificação do corpo físico num nível que pode ser considerado fundamental.

Aqui, considerações de caráter paradoxal. O paradoxo é um tempero bem-vindo à chatice da vida comandada apenas pela razão lógica de um ego ensinado e condicionado.

O trabalho da plena atenção à respiração é precioso por um lado porque me aproxima da compreensão de que não estou necessariamente só no comando da minha vida, de que há uma instância maior que cuida de mim enquanto me ocupo de outras coisas. Sentir-se respirado: ao expandir essa percepção durante a prática, tenho a chance de perder um pouco a pequenez do ego que se acredita ser o agente único em todos os momentos. Na verdade, terceirizei desde sempre o respirar para o todo-poderoso piloto automático do inconsciente.

Por outro lado, se retomo as rédeas da minha realidade incorporando exatamente essa expansão, e passo a respirar conscientemente, amplio a percepção intuitiva da verdade do meu corpo. Tenho a chave para aprender a guiar o respirar explorando esse meu corpo. Favoreço a troca fisiológica dos gases na observação cuidadosa da percepção do processo em si, aprendo a garantir a saúde num nível limítrofe do meu ser, movendo-me para uma oitava superior, para o lugar em que inexplicavelmente se materializa a minha essência, bem no âmago do meu cérebro. É ali que misteriosamente o sangue transmuta. É filtrado através de uma camada mágica de tecido epitelial, e o plasma sanguíneo reemerge como fluido cérebro-espinhal que carrega a luz da informação cósmica para manifestar o que chamo de vida.

Eis a prática -no yoga chamado de abhyasa- do domínio da ferramenta em si. Essa prática porém, que envolve esforço e conhecimento, pede atenção constante a uma prontidão para o desapego –no yoga chamado vairagya- dessa certeza humana de acreditar estar no controle. Porque um instante não é igual a outro, e o que servia há segundos atrás talvez já não sirva mais. É quando me torno capaz de entregar esse processo vital, delicado e sofisticado, à inteligência de uma norma do Criador. Eis o paradoxo que exige confiança e gratidão, e que garante o equilíbrio, a homeostase chamada saúde perfeita.

por Lucia Ehlers – Profissional independente na área de bem estar e desenvolvimento humano, Terapeuta Craniossacral e professora de Yoga.

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