Depois de encarar nove horas de canoa Floresta Amazônica adentro, dezenas de pessoas de várias partes do mundo dançam dentro de um shiru (uma grande tenda), de mãos dadas com indígenas da etnia yawanawá. A cena é parte do 16º Festival Yawá, que anualmente e durante uma semana apresenta a cultura e os rituais daquela aldeia, situada no alto Rio Gregório, no município de Tarauacá, no Acre. Em dado momento, surge uma mulher com um gigantesco cocar branco, que lhe desce pela cabeça, acompanhando a silhueta do corpo. E ela subverte a tradicional dança de roda indígena.

Putanny Yawanawá, de 40 anos, parece mesmo ter vindo ao mundo para romper barreiras. É a primeira mulher yawanawá a se tornar pajé (sua irmã Hushahu veio em seguida). Para ser líder espiritual de seu povo, teve que enfrentar o preconceito dos homens, o receio das mulheres e encarar, durante um ano, uma dieta tão rigorosa que a fez perder mais de 20 quilos. Vem a ser a prova dos nove feita por aqueles que desejam se aprofundar nos conhecimentos e sabedorias ancestrais da espiritualidade.

“Infelizmente, os homens indígenas são muito machistas e nenhuma mulher tinha ousado pisar nesse terreiro sagrado. Mas eu e minha irmã sentimos o chamado e quebramos uma tradição. Foi uma luta, fomos repudiadas e desacreditadas na aldeia ”

Foram 12 meses de isolamento no meio da floresta e de alimentação restrita a pequenas quantidades de caiçuma, bebida alcoólica à base de mandioca, pequenos peixes e banana verde. Sem doce, sexo, contato com os filhos (na época, ela tinha dois, hoje, tem quatro) ou com o companheiro (o cacique Biraci Brasil, que a chama de “professora”). Mas com muita medicina da floresta, como uni (ayahuasca), rapé, saliva da jiboia e veneno de sapo — até então também usados apenas pelos homens dali.

— Por sermos mulheres tivemos uma preparação ainda mais rigorosa, como se tivéssemos que provar duas vezes mais que éramos capazes — lembra. — Meu pai, que na época era o cacique, dizia que não podíamos voltar atrás, se não envergonharíamos o nosso povo e traríamos uma maldição. As pessoas na aldeia tinham a certeza de que não suportaríamos, pensavam que íamos desistir. Mas a gente passou por todas as provas.

Pelas mãos do pajé Tatá, seu antecessor, Putanny se aprofundou nos saberes de seu povo. Foi na espiritualidade e na força da mulher que ela viu um caminho para manter sua cultura viva e pulsante.

Na volta da dieta e junto com o marido — seu incentivador e grande responsável pelo resgate da cultura yawanawá —, Putanny começou a revolucionar a aldeia, ao lado de Hushahu. Além dos tratamentos medicinais, como os banhos de argila e de ervas, elas renovaram rituais de sua cultura.

— Os cantos ganharam outra dimensão e potência, que recebemos através da medicina e dos sonhos durante o nosso processo. Começamos a cantar com outra voz. Quando apresentei a dança que recebi, livre e completamente diferente da roda tradicional, torceram o nariz, mas depois acabaram se encantando — conta. — Até aquele momento, nossos rituais eram escuros, todo mundo ficava sentado. Hoje, eles são alegres, misturam mulheres criança… Isso uniu a gente. E se refletiu nas crianças e nos jovens. Houve um empoderamento geral.

Violões, ukuleles, flautas e tambores

Hoje, a nova geração yawanawá não só tem o orgulho do pertencimento estampado na pele — basta ver as pinturas de jenipapo e os artesanatos que cobrem os corpos — como contribui para sua renovação. A inclusão de instrumentos musicais nos rituais é obra deles. Meninas e meninos tocam violões, ukuleles, flautas e tambores vigorosos.

Em tempos de desmatamento recorde na Amazônia (dados divulgados pelo Inpe, em novembro, mostram que a derrubada da floresta entre 2018 e 2019 é a mais alta dos últimos dez anos) e de políticas ambientais questionáveis, Putanny apela para o bom senso:

— Não somos os donos da terra, nós cuidamos dela e ela cuida de nós. É tudo que temos, de onde tiramos nossa sobrevivência e onde está o futuro das nossas gerações. O debate sobre a natureza deve ser conduzido pelos povos indígenas e não por pessoas que não têm relação com ela ou com os espíritos de ancestrais que vivem nela. Conectados com eles, buscamos a sabedoria para ter a reposta de que o mundo precisa.

Para ela, a resposta passa por dois pilares: amor e união.

— Não importa se somos indígenas ou brancos, é tempo de a gente se juntar e unificar o pensamento. Estamos fechando um ciclo, vivemos o reflexo de um passado de exploração da natureza por parte do branco. Vem aí a era da verdade, do amor, do equilíbrio, com a natureza ditando as regras. A cura do mundo é pela espiritualidade, e ela é coletiva. A resposta, a solução não está fora, está dentro de nós.

Fonte: Blog da Cidadania